
O magnífico templo zen budista da Rua Saint Roman 16, Copacabana, Rio de Janeiro, Brasil, chamado de Dai Muni San Nonin Zenji foi fundado em 1994. Foi uma doação, ou um empréstimo através de um contrato de comodato, da senhora Dona Leda Dias Garcia, que agraciava a sociedade carioca, com seu carisma. Dona Leda era cliente de um terapeuta inglês, especializado em shiatsu e acupuntura, o monge Robin Moss, discípulo do Tokuda Sensei, naquela época. Dona Leda, apreciando o tratamento do monge Robin Moss, quis conhecer o trabalho do Sensei Tokuda. E com isto ofereceu este imóvel para que ali se fizesse um templo Zen Budista, que contivesse os tradicionais ensinamentos e práticas Zen. O Tokuda Sensei aceitou esta doação e convocou o monge Marcos Ryokyu (eu) para que levantasse o projeto. Singelamente esta foi a história de como foi levantado o templo. O Tokuda Sensei diz que eu, Marcos Ryokyu, sou o fundador deste templo, mas acho que isso seria uma transferência de méritos do Tokuda Sensei, fundador da Sociedade Maha Muni do Brasil, da qual o templo Noninji Copacabana faz parte. O templo foi ofertado graças à boa fama do Tokuda Sensei, não por minha causa. Eu também fiz treinamento em mosteiros japoneses, fiz a batalha do dharma com a presença de Saikawa Roshi e me formei em filosofia na PUC-RJ. Junto com o Tokuda Roshi, fiz angos no mosteiro de Ouro Preto, no mosteiro de Eisho-ji (do qual fui um dos fundadores, tendo descoberto o terreno onde está fincado até hoje o Eisho-ji), vários rohatsu sesshin em Ibiraçu com o Tokuda Sensei. É a famosa transferência de méritos do Tokuda Sensei, deixando que a gente também ganhe nossa quota de méritos. Naquela época a casa se encontrava em estado de abandono, já que a Dona Leda Dias Garcia não mais habitava nela. A casa, feita por um arquiteto francês, está situada em cheio na favela do Pavãozinho, Rio de Janeiro, perto da Rua Sá Ferreira, em Copacabana. É uma belíssima casa com detalhes em mármores, janelas com armações antigas de ferro, espelhos de cristal.
Temos muito a agradecer ao sr. Sogo Tomoichi, já falecido, mas ouvindo do céu, por suas doações, para tornar a casa habitável novamente.
Também o templo Dai Muni San Nonin Zenji é amplificadamente magnífico por outra razão, pois foi comissionado pelo Tokuda Sensei, notoriamente o transmissor do Budismo e do Zen neste abandonado país, um rincão perdido no fim do mundo. Uma história como esta não havia sido verificada desde o advento do Peter Pan descobrindo a Terra do Nunca. Então este templo é a Terra do Nunca hoje em dia, em carne e osso, sendo, pois, duplamente magnífico. Como na Terra do Nunca do Peter Pan, aqueles que moram neste templo não precisam crescer ou decrescer, pois moram no ‘Agora Eterno,’ na ‘Plenitude do tempo’ mencionada pelo Meister Eckhart, estando assim liberados da obrigação inevitável do surgimento e fenecimento. Pois Nirvana quer dizer ‘extinção do desejo, sofrimento e ciclo do renascimento.’ Aproveitando aqui gostaríamos de fazer uma severa crítica aos filmes do 007, James Bond, (‘Nunca mais outra vez,’ ‘Never say never again’) onde ele trata maliciosamente aqueles que fazem meditação, não estando plenamente consciente de que a prática zen era a prática de todos os guerreiros japoneses, samurais e ligado ao código de honra bushido. Deve ter tido contato somente com o aspecto niilista e chocho do Budismo, talvez o Budismo Hinayana de Schopenhauer no século dezenove e pior ainda, o Budismo que os Ocidentais creiam que seja o Budismo hoje em dia, como os adeptos do ‘mindfullness.’ Há há há. Quando um país mostra força e super-heróis, é quando passa de Great Britain para Mini England, isto é, é um sintoma de quando termina um império, uma máscara da decadência, uma zombaria da glória passada, quando super-heróis não querem mais sujar as mãos.
Finalmente o Budismo será uma filosofia, uma religião, ou um modo de vida? Não podemos eliminar o ponto de vista que esteja ligado com artes marciais, vide o filme do Van Damme, em que visita um templo budista na Tailândia (‘Desafio mortal’, ‘The Quest’), onde ‘ainda se podia ouvir o eco dos guerreiros imortais.’ Uma arte marcial contra a ignorância, decrepitude e morte. Quando a pessoa é moça como o Van Damme era naquela época, não imagina o sofrimento das pessoas quando envelhecem, mas um dia eles também vão ser velhinhos. Este filme é uma glorificação da imaturidade, que envergonha todos os verdadeiros artistas marciais e também ao Sensei Tanaka, estragando uma relação que devia ser sagrada, pois o Sensei Tanaka (no filme, o mestre do Van Damme de karatê, karma pesado) passa sua Escola adiante, que tem que se adaptar aos gostos esdrúxulos dos consumidores de filmes americanos.
Onde estão os velhos filmes de Hollywood sobre a vida cotidiana sem necessidades de super-heróis que salvem o mundo da hecatombe. A vida cotidiana é tudo e fora disto não há nada. Pois a tradição zen do budismo proveio da escola budista chamada Sarvastivada na Índia, a chamada Escola da Realidade, de onde veio o zen, que ensinava que os fenômenos funcionam nos três tempos, passado, presente e futuro, que explica como a causalidade budista funciona, bem como o karma. Quer dizer, do que adianta falar sobre o Budismo, e sim do que a ótica Budista nos faz ver do mundo, isto é, o mundo como ele é, os fatos como eles são, parecido ao Nelson Rodrigues, a vida como ela é. Mandalas não são somente decoração, mas devemos ver as mandalas dentro dos acontecimentos do mundo, mundo querendo dizer pureza, e cosmos beleza. Beleza pura. Como dizem em latim, ‘orbis mundi circulus.’ Com isso vemos que o Tokuda Sensei é o rei do Dharma e da realidade, pois ele não somente transmitiu o zen ao Brasil, mas também na Europa, quem tem um, dá um, quem tem dez, dá dez.
Neste ponto alguém podia perguntar: ‘O que tudo isso tem a ver com o zen?’ Em primeiro lugar eu não moro na China antiga, só tenho parâmetros modernos pelos quais me orientar, não tem imperadores por aqui, só os fatos cotidianos, que são os que uso. Teorias budistas e sutras também não devem ser usados, pois tudo está já no estado liberado. Também não existe zen, só Budismo, bem como a prática da pessoa deve permanecer num estado sem intenção, sem querer alguma coisa e em último lugar, não utilizo kanjis chineses ou japoneses para mistificar ninguém, só uso a mente cotidiana do Ocidente moderno mesmo para falar, o que nos leva ao segundo item do site: O que viria a ser um zen brasileiro? Assunto para a próxima seção do site. Também o zen só vai virar realidade para os brasileiros se não estiver contaminado com modelos importados, tem que ser o nosso próprio. Com todas nossas limitações.
Não se trata de uma prática fácil de ser feita por dois motivos: primeiro, traz consigo um choque cultural, em segundo lugar é difícil de ser praticada, mantida, avaliada (para se saber exatamente onde se encontra a prática) e levada adiante, dependendo de uma orientação correta, que foi o que o Tokuda Sensei tentou implantar no Brasil.
A prática do zazen é dita ser uma floresta de méritos, como um bosque de sândalo. Os moradores ali saúdam os novos dias que se sucedem, conhecendo o valor de cada dia, verdadeiros faróis da eternidade. Morando tranquilamente no chão do ser, a parte mais essencial de Deus e da alma, mencionada também pelo Meister Eckhart, monge dominicano do século 12. Pois aqui não se busca algo com o zazen, já estamos no samadhi do Buda Vairocana, porque estamos iluminados é que praticamos. A iluminação é que nos leva à prática.
Uma vez tendo começado os trabalhos de templo ali, muitos mestres Budistas ali frequentaram, como o próprio Tokuda Sensei, Moriyama Roshi (superior para a América Latina da escola Soto Zen, sediada em São Paulo, na rua São Joaquim, São Paulo, capital), Nakamura Sensei, que acolhia brasileiros no Japão em seu templo, foi aqui recebido no Templo Dai Muni Noninji, Copacabana. Inclusive monges brasileiros que moravam no Templo Zen Copacabana, mais tarde foram ao Japão, morando com o Nakamura Sensei em Nagoya, se preparando para entrar em mosteiros japoneses. Ocorreram sesshins de fim de semana, já que é um templo de cidade, onde todos trabalham, não é possível fazer sesshins mais prolongados. Para os mais sesshins mais prolongados usávamos uma casa emprestada em Petrópolis, também da excelente Dona Leda Dias Garcia, de tantas boas memórias. Aqui também moravam pessoas interessadas em praticar a meditação e o zen, que participavam nas seções matinais de zazen e sutras.
Infelizmente este é meu estilo de zen, tenho que usar, o de outros, por mais chineses e japoneses que sejam, não sei usar, melhor com o que sei, já que o Tokuda Sensei autorizou. Brincando nas marolas e no fundo dos oceanos mais profundos.